Considerações sobre a CodeX Future Law Conference

Por: Cabanellos Advocacia em 22 de 05 de 2018

No último dia 5 de abril, a Universidade de Stanford sediou a CodeX Future Law Conference, a maior conferência realizada nos Estados Unidos para discutir Direito e Tecnologia. Foi, sem dúvida alguma, uma grande experiência acompanhar presencialmente as principais mudanças que estão acontecendo no mercado jurídico, na região mais inovadora do planeta!

O evento, que contou com advogados, acadêmicos, empreendedores e engenheiros, tem o propósito de promover uma maior discussão de legal technology e apresentou um line-up altamente qualificado, com palestras realmente inspiradoras, abordando os principais assuntos que estão conduzindo essa revolução no mercado jurídico.

A conferência teve início com um keynote da presidente da American Bar Association (ABA), Hilarie Bass, que abriu sua apresentação desafiando os advogados presentes a serem ousados, aventureiros e corajosos, de modo a romper barreiras ainda existentes que impedem a colaboração entre advogados, tecnologistas e outros profissionais que estão moldando a forma como serão prestados os serviços jurídicos no futuro. Além disso, Bass compartilhou que a associação está de olho na forma como tais tecnologias impactarão o mercado, ponderando a questão de que o mindset do advogado tradicional ainda é olhar para trás e ser avesso ao risco, ao passo que o mindset de quem lida com as novas tecnologias é olhar para frente e que isso acaba gerando um conflito, que deverá ser melhor conduzido.

Consciente deste contexto, Bass deixou claro que a ABA está atenta a esses movimentos e possui iniciativas em andamento para impulsionar a inovação tecnológica, tais como a criação de um Centro para Inovação, iniciado em 2016, e a Comissão sobre o Futuro dos Serviços Legais, em 2017, concluindo sua palestra e implorando aos presentes para se unirem contra eventuais movimentos que sejam contrários ao desenvolvimento de inovações dos serviços jurídicos e poderiam contar com a ABA nesse movimento.

Na sequência, Arianna Rossi falou no primeiro round de Legal Innovation Lightning sobre Data Protection by Legal Design e a forma como legal design está sendo utilizado na Europa, com o objetivo de comunicar termos jurídicos difíceis e conceitos tecnológicos complicados sobre privacidade de dados, de uma maneira que sejam compreensíveis aos consumidores. Nesse aspecto, apresentou seu projeto de desenvolver a criação de ícones para melhorar a experiência do usuário (UX) e o seu engajamento e compreensão dos documentos legais, especificamente em relação à proteção de dados, ponto sobre o qual muita atenção tem sido dada a partir da General Data Protection Regulation (GDPR).

Em seguida, Daniel Linna apresentou a forma como ele vem medindo a disrupção no mercado jurídico, junto a escritórios de advocacia e escolas de Direito de diferentes países, sustentando que no futuro os escritórios de advocacia deverão ser medidos não por suas receitas, mas pelas tecnologias que tenham adotado em suas operações. Seu trabalho consiste em identificar as lawtechs e legaltechs que estão criando soluções ao mercado, separando-as por categorias (marketplace, document automation, practice management, legal research, legal education, ODR, e-Discovery Analytics e Compliance), com o objetivo justamente de identificar a comunidade de legal technology.

Adiante, Philippa Ryan, Kushagra Shrivastava e Nathana Sharma, em painel intitulado “Além dos ICOs- Blockchain como Legal Tech”, abordaram algumas oportunidades que o blockchain apresenta para o mercado jurídico, pontuando que ele poderá ser aplicado em diversas situações, tais como documentar identidade e propriedade (alterando a forma como registramos propriedade hoje em dia) e autenticar bens e serviços (alterando o atual processo de bill of landing usado ainda hoje no transporte internacional de bens).

No segundo painel sobre Legal Innovation Lightning, Carlos Gámes apresentou The New Tasks of the Lawyer of the Future, trazendo que os clientes hoje em dia já não procuram mais aquele advogado dotado exclusivamente de conhecimento jurídico. O advogado do futuro deve atuar como parceiro estratégico do seu cliente e ser profundo conhecedor do mercado onde ele está inserido. Impõe-se, ao advogado, ter conhecimento do negócio do cliente, conhecimento de tecnologias aplicáveis ao cliente e conhecimento analítico de dados. É esse conjunto que irá efetivamente criar valor ao cliente.

Após um dia inteiro de instigantes provocações e reflexões sobre o futuro do mercado jurídico, a professora de Stanford, Deborah Rhode, encerrou a conferência ressaltando que estamos ainda na fase inicial de uma revolução tecnológica nos serviços jurídicos e que nada deterá esse avanço. Nem mesmo órgãos reguladores que ainda são refratários ao avanço de algumas tecnologias.

Este breve artigo procurou ressaltar alguns pontos que julguei importantes, entre tantos outros que foram abordados ao longo do dia. A programação completa da conferência poderá ser acessada aqui.

Por Roberto Xavier Lopes, sócio do Cabanellos Advocacia